O
ofício de escrever para quem não gosta de ler
Acabamos de completar o quinto centenário da ocupação
destas terras por povos deuropeus. E
ultrapassamos este aniversário imersos como sempre estivemos nas dlamentações
por vivermos mergulhados no atraso, na pobreza e na falta de esperanças
dde que, um dia, possamos usufruir da
condição universalmente privilegiada com que a dNatureza
nos brindou. Somos um país enorme, quase um continente, rico no
solo e no dsubsolo, livre de catástrofes
naturais, com a maior bacia hidrográfica do mundo e todas das
fabulosas condições destacadas por Stephan Zweig no seu famoso
“Brasil, país do dfuturo”,
redigido para bajular o ditador Getúlio Vargas.
dE nossos olhos levantam-se
com um misto de inveja e admiração para cima, para o dNorte,
onde impera um país do nosso tamanho e com a nossa idade. Como
aqueles dmalditos americanos chegaram tão
longe?
dDesde a adolescência essa
pergunta me persegue. Em meio à Guerra do Vietnã, era fácil dencontrar
respostas nas posturas imperialistas dos americanos: o mundo é
pobre porque dos Estados Unidos são
exploradores e enriquecem com a miséria dos outros. Nosso ddesenvolvimento
só seria possível no momento em que os expulsássemos de nosso
solo, dem que nacionalizássemos a Esso,
a Coca Cola e a aveia Quaker.
dMas, para quem dedicou toda sua vida adulta a
militar na Educação e na Literatura, eu dtinha de buscar explicações na História. E, mais
especificamente, na História da Cultura.
dHá pouco mais de duzentos
anos, treze colônias da costa norte-americana do Atlântico ddeclararam
sua independência da Inglaterra. O poderoso império militar britânico,
capaz dde controlar os quatro cantos do
mundo e de, pouco anos depois, mostrar-se capaz de dderrotar
o fortíssimo exército de Napoleão, mal se esforçou para retomar
aquelas terras drebeldes. Logo
desistiu, porque aquela região que começava a chamar-se Estados dUnidos
era pobre demais, pouco povoada e atrasada. Tudo o que eles estavam dperdendo
eram as plantações de fumo da Virgínia, pois a metade norte
daquela região dera tão inútil que
até o escravismo não tinha dado certo por lá. Na América do
Norte, o descravismo só deu certo mais
ao sul, naquelas plantações de fumo e logo de algodão, donde
trabalho era “coisa de escravo” e um descendente de europeu que
se prezasse dnão poderia trabalhar,
para não se igualar a um escravo. Nos dois terços mais ao norte dda
costa atlântica, onde a terra era pobre e pedregosa, a região das
tais treze dcolônias, não havia
plantações que pudessem se beneficiar do trabalho escravo. Por lá,
dcada homem trabalhava duro por sua
sobrevivência, matando índios, devastando dflorestas
e principalmente pescando. E foram justamente essas treze colônias
que, disoladas, puderam progredir tanto
e, para a felicidade do futuro dos Estados Unidos, dpuderam
também vencer a guerra que travaram contra o Sul, uma região de
economia dtão retrógrada quanto a
civilização que se desenvolvia no Brasil. Sob o regime criado dpelo
Norte, os americanos trabalharam, progrediram e encontraram sua própria
maneira dde progredir. Criaram seu próprio
modo de organizar sua democracia e até seus próprios desportes
– em que lugar do mundo se joga aquele futebol de trombadas, com
homens dvestidos de armadura?
Mas o que interessava à coroa
britânica não eram regiões inóspitas e trabalhosas. dEram os grandes mercados
consumidores e fornecedores de matéria prima como China e dÍndia – ah, o chá, o marfim,
a seda, o ópio! Os americanos que lá ficassem com aquela dterra paupérrima onde, por estar
na mesma latitude da Europa, sequer era possível dplantar alguma coisa exótica que
pudesse ser consumida na matriz, como a cana de daçúcar ou as bananas.
dNas Américas, ricas e prósperas
eram cidades mais ao sul, como a cidade do México, dcomo
Lima, como Salvador, como Olinda e como Vila Rica. Aqui sim havia
ouro, ddiamantes, podia-se plantar cana
de açúcar, bananas e o gostoso cafezinho. Se haviam dperdido
o controle sobre o fumo da Virgínia, tinham as plantações de fumo
do Caribe, dprincipalmente de Cuba, do
Peru, da Colômbia, da Bahia...
dEnquanto isso, os Estados
Unidos desenvolviam-se à margem dessa globalização dimposta
pelo colonialismo europeu desde o século XV. Por serem pobres e
atrasados, os dEstados Unidos, nos últimos
dois séculos, puderam ficar praticamente isolados e criar dsua
própria maneira de organizar-se e desenvolver-se. Por serem pobres
e atrasados, dpor lá pouca atração
havia para europeus aventureiros que buscassem fortuna rápida e dfácil.
Para voltar rico para a Europa, era muito mais promissor embarcar em
caravelas dpara o México, para as
ilhas da América Central, para o Peru, em busca da prata de dPotosi,
ou mais para cá, para a costa sul do Atlântico, onde em se
plantando tudo ddava, para as Minas
Gerais, de onde se extraía ouro e diamantes quase à flor da terra,
dpara a exuberante Baía de Todos os
Santos, onde o comércio de escravos garantia dfortunas
rápidas e fáceis.
dE quem eram esses
aventureiros que aqui desembarcavam? Por acaso tratava-se de dfidalgos
educados, que traziam suas famílias para transformar esta colônia
em sua dpátria? Certamente não. Eram
criminosos degredados uns poucos, e traficantes, piratas de
saqueadores a maioria.
dOs homens que compunham as
tripulações dos navios que para cá aportavam drepresentavam
a ralé de toda a Europa: eram aventureiros portugueses, espanhóis,
dholandeses, franceses, genoveses, árabes,
judeus... E imaginemos como eram esses dhomens:
naquele tempo, ninguém tomava banho ou escovava os dentes. Os dmarinheiros,
então, além de brutais analfabetos, na certa já não tinham
dentes desde a dadolescência, ou
portavam cacos esverdeados e podres sobre as gengivas. Por jamais dse
banharem, vinham cobertos de piolhos e de doenças de pele
provocadas por dimundícies sem conta.
Para se ter uma idéia, basta saber que os colonizadores europeus dficavam
abismados com o exótico costume dos chineses, que usavam folhas de
papel dpara limpar-se após a defecação!
Os europeus não tomavam banho e nem se limpavam! dBem,
nossos antepassados não eram modelos agradáveis de se descrever.
Acima de tudo, esses viajantes
eram do sexo masculino; mulheres jamais faziam dparte das tripulações. E esses
homens passavam semanas a bordo de caravelas dperigosas, à beira do escorbuto
por falta de alimentos frescos, fedendo como porcos, e dchegavam... às praias
brasileiras! Imaginemos sua chegada, imaginemos o choque de dseu olhar e de suas narinas ao
comparar a vida fétida das aglomeradas cidades deuropéias com a paisagem que se
lhes abria diante dos olhos... E imaginemo-los ddeparando com... as mulheres indígenas!
Numa vida junto à natureza, onde viver dmergulhadas nos rios era a
rotina, aquelas eram mulheres limpas, cheirosas, enfeitadas dcom cocares multicoloridos e...
peladinhas! Hum... depois de ter passado semanas à dmingua de mulher, o que faziam
esses piratas? Ora, comiam as índias, é claro!
O resultado disso eram
casamentos, a formação de famílias? Não. Na maior parte ddos casos, essas ligações ou
eram estupros ou eram coabitações poligâmicas, sem dqualquer intenção de aqui
reproduzir a cultura familiar européia, tanto no que diz drespeito às mulheres indígenas
quanto no caso das escravas, essas sim, comumente destupradas. Nossos colonizadores
não organizavam famílias; emprenhavam índias e descravas. Em seguida, esses
papais ficavam por ali para cuidar da prole? Não. dContinuavam embrenhando-se nas
matas, capturando índios, massacrando-os, dprocurando ouro e incendiando
florestas para suas plantações. E as crianças eram dcriadas somente pelas mães. Por
isso, a maioria desses novos brasileiros aprendia dapenas a língua da mãe e só
vinha a aprender o Português quando crescia e tinha de dtrabalhar nas entradas, nas
bandeiras ou como feitores dos milhares de escravos, o dproduto mais rentável de
praticamente todo o período da colonização brasileira.
dE essas crianças formaram o
nosso povo. Como se chamavam? Tinham apenas o dprimeiro
nome, ganho na hora do batismo. Assim, quando se perguntava quem era
certa dpessoa, ouvia-se:
– Esse é o José.
– José? Que José?
– É aquele que veio da selva,
onde morava com os índios.
– Ah, bom, então é o José da
Silva. E esse outro? É José e também veio da mata? dBom, para não confundir, vamos
chamá-lo de José de Matos. E aquele ali?
– Veio da costa. É o João.
– Então é o João da Costa. E
o outro?
– Quem? O Antônio, aquele que
tem mania de pentear o cabelo?
– Ah, é? Então vai ser o Antônio
Penteado. E esse aí?
– Esse é o Pedro. Aquele que
sai com as bandeiras.
– Ah, então é o Pedro
Bandeira!
dAssim nasceu e começou a
crescer o povo brasileiro, sem nome, sem família e sem dpátria.
E sem História, sem passado. Ao nascer nas matas, nas senzalas, o
povo dbrasileiro não recebia a herança
do conjunto de conquistas de um povo, com tradições, dcom
arte, com tudo aquilo que compõe as raízes de uma cultura. Mesmo
os povos dafricanos que para cá foram
trazidos à força eram divididos e misturados na chegada, dpara
maior controle e prevenção de rebeliões, assim enfraquecendo
muito as didentidades culturais que
traziam de seu continente.
A ocupação do Brasil colônia
organizou-se não para aqui ser fundada uma nação, dmas para saquear, para retirar
tudo o que fosse possível e levar para a matriz. Nós já dnascemos globalizados! Tudo o que
aqui se produzia destinava-se apenas às dnecessidades européias. Ao contrário
dos Estados Unidos, aqui nunca se pretendeu dcriar um mercado interno, uma
classe média consumidora, preparada, com salários drazoáveis, e muito menos culta,
lida, conhecedora de suas necessidade e capaz de dtraçar seu destino. A imprensa,
inventada no século XV, só foi introduzida no Brasil no dséculo XIX, com a chegada da família
real portuguesa. E é interessante observar que o dmesmo decreto real que criava a
imprensa por aqui criava também... a censura à dimprensa!
E, sobre todo esse sistema, aqui
estava a Igreja Católica como sustentáculo dideológico do processo. Como
sabemos, para abraçar a religião católica, não é preciso dsaber ler. Basta saber ouvir, de
modo a inteirar-se da moral católica, dos fundamentos ddessa fé, através do sermão do
sacerdote, único intermediário entre a Bíblia e os fiéis. dAlmeida Garret, em meados do século
XIX, há apenas 150 anos atrás, fazia um de seus dpersonagens queixar-se de não
poder ler a Bíblia, pois só havia Bíblias em Latim. Os dcatólicos eram impedidos por
todos os meios de ler a Bíblia.
dVoltemos aos Estados Unidos.
Mesmo no período dominado pela Inglaterra, a dsuperestrutura
ideológica de sua colonização era anglicana, uma religião que já
havia se dlibertado da Igreja romana
desde o século XVI. E, depois da independência, a maioria ddos
que embarcavam para lá eram famílias que precisavam fugir da
Europa por razões dreligiosas e políticas.
Perseguidos por este ou aquele poderio europeu, essas pessoas dpara
lá mudavam-se com suas famílias, sabendo que a volta seria impossível.
dProcuravam um refúgio, onde pudessem
construir um novo lar. E essas pessoas – dinglesas,
escocesas, holandesas e alemãs, num primeiro momento e, logo em
seguida, dirlandesas também – eram
protestantes: luteranos ou calvinistas, em sua maioria. E, dpara
sustentar sua religião, alfabetizar as pessoas desde crianças era
uma obrigação.
dHá uma frase de Martinho
Lutero que nos dá o que pensar:
dDas nächte bei der Kirche
muss die Schule sein”. Tradução: “A coisa mais próxima da dIgreja deve ser a escola”. Isso porque a religião
protestante baseia-se na leitura da dBíblia, não na oitiva de sua interpretação. Para
ser protestante, é preciso ler a Bíblia. E, dpara ler a Bíblia, é preciso saber ler e bem, pois
esta não é uma leitura fácil. Assim, desses imigrantes, logo que se estabeleciam em algum
lugar, construíam seu templo e, dao lado, uma escola. Desse modo, salvo pequenas exceções,
o problema do danalfabetismo nunca atingiu os Estados Unidos. Além
disso, como se sabe, um dos dpilares da ideologia de Lutero era a santificação
da riqueza, secularmente demonizada dpela Igreja Católica. Sob a ideologia anglicana,
luterana ou calvinista, o trabalho era dsagrado e vencer na vida, enriquecer, era uma
virtude. Os Estados Unidos nasceram dpara enriquecer e, melhor ainda, nasceram
sabendo como enriquecer, pois sabiam ler!
Mas por aqui e pela América
espanhola também começaram a surgir escolas, dtodas a cargo da Igreja. Mas, que
escolas eram estas? Para quem funcionavam elas? dSomente para os filhos da elite.
O povo brasileiro, os filhos das selvas, das matas, das dbandeiras, os mestiços, os
mulatos, os mamelucos, os cafuzos, não tinham quaisquer ddireitos de cidadania. Cidadãos
eram apenas os componentes da elite. Há pouco mais dde um século, por exemplo, o
Brasil conseguiu abolir a vergonhosa escravização de dseres humanos. O que ocorreu então
naquele fim de Império e início da fase drepublicana? Alguém imaginou que
aqueles escravos libertos tinham de ser tratados dcomo novos cidadãos, com direito
à habitação, à terra, à propriedade, ao trabalho livre de justamente remunerado e –
principalmente – à escola? É claro que não. Nossa dabolição da escravatura
equivaleu à condenação a outro tipo de escravatura: a dexclusão absoluta,
principalmente daquilo que hoje consideramos como um direito básico
dda humanidade – o acesso ao
conhecimento, à educação. Atualmente, segundo o dInstituto de Pesquisa Econômica
Aplicada, a população negra do Brasil é duas vezes e dmeia mais pobre do que a branca.
Nossos afrodescendentes representam 45% de nossa dpopulação, mas representam também
70% de nossa população de indigentes... Como ddiz Roberto Martins, presidente
do IPEA, a pobreza neste País tem cor e essa cor é dnegra.
dMas nossa indigência negra é ainda acompanhada
pelos 30% de miseráveis ddescendentes dos aventureiros europeus. E minha
intenção é mostrar que a exclusão ddo conhecimento é a principal causa de todas as
demais exclusões. Só para se ter uma didéia, em 1928, 80% dos alunos que estudavam no
equivalente ao ensino médio dfreqüentavam escolas católicas, particulares,
pagas. Quem eram esses estudantes? dFilhos da elite, é claro. Eu estudei desde o fim da
década de 40 até o início da de 60 em dSantos, onde nasci. Estudei em escolas públicas,
que eram bons colégios na época. dImagina-se então que, havendo boas escolas públicas,
o processo de exclusão da dmaioria do povo brasileiro estava em seus últimos
dias, não? Não. Hoje eu sei que, dnaquele meu tempo, só havia vagas para 30% das
crianças de Santos nas escolas. 70% dde quem nascia naquela época estava condenado ao
analfabetismo, mesmo em uma dcidade como Santos, um porto próspero e importante.
dA cultura que fomos criando
neste país foi a cultura fidalga, a idéia de que quem nasce dem
berço de ouro não precisa esforçar-se, não precisa trabalhar –
isso é coisa de descravo! – não
precisa estudar, não precisa ler, pois sua situação de privilégio
seria um ddireito de nascença. Para os
outros, para os da Silva, da Mata, da Costa, ou da dBandeira,
sobrou só o esforço. A estes sempre foi negada a escola, a educação,
a dcidadania, o direito de construir
sua própria vida, seu próprio destino.
dMas, felizmente, nossa situação
está mudando, e para melhor, muito melhor. Em 1930, d5%
de nossa população total estava estudando, desde a pré-escola até
a universidade. dDá então para
entender quem, durante estes 70 anos, compôs a população adulta dbrasileira,
não é? Uma imensa maioria de pessoas despreparadas, desinformadas,
dincapazes de construir um país melhor
do que o que temos hoje, incapazes de escolher dadequadamente
em quem vão votar. Atualmente, porém, 34% de toda a nossa dpopulação
está na escola: são 56 milhões de estudantes em uma população
de 167 dmilhões de pessoas. E mais,
atingimos um número de primeiro mundo: 95% das crianças de
jovens entre 7 e 14 anos estão na escola, conquista inédita no
Brasil nestes 500 danos, uma cifra
equivalente à do próspero Japão! Pela primeira vez em nossa História,
dpodemos dar a volta por cima.
dRecentemente, foi divulgada
um extensa pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira ddo
Livro acerca do hábito de leitura dos brasileiros. Dentre muitas de
suas conclusões, dessa pesquisa
constatou que quase metade das pessoas de 14 a 19 anos lê e gosta
de dler, enquanto que essa percentagem
vai caindo nas outras faixas etárias, até chegar a dmíseros
24% na população acima de quarenta anos! Isso certamente significa
que o desforço dos professores nesta
última década incentivando seus alunos a lerem livros dcomo
os que eu escrevo está dando bons resultados. Já está
dando bons resultados! dEstamos
melhorando, afinal, o Brasil está melhorando!
d
Há uma frase imortal de Confúcio
que nos serve como nunca, agora, nos albores dde um novo milênio totalmente
tecnológico, baseado no conhecimento: “Onde houver dboa educação, não haverá
distinção de classes”. Nossa História tem sido a da deternização da injusta divisão
de privilégios através da negação da escola para todos. dNossa História tem sido a história
da exclusão. Vamos mudar a História. Podemos
fazê d-lo!
dPara a consecução dessa
meta, porém, precisamos mexer em nossa própria maneira de dver
a educação. Por causa da tradição que acabei de descrever, este
é um país onde a dluta pelo
conhecimento e pela leitura não faz parte de nossos valores
maiores. Mesmo dnossas elites, mesmo as
pessoas que podem comprar livros, lêem muito pouco. Mesmo dnossos
alunos filhos de famílias com condições raramente têm o exemplo
da leitura em dcasa. Quem trabalha em
Educação sabe que muitos pais de classe média sacrificam-se dpara
comprar o tênis da moda para seu filho, mas esperneiam quando a
professora pede da compra de um livro.
Pois é: para nossa elite, é mais importante investir no pé do que
dna cabeça do filho... Nossa civilização
começou com o arrasamento de todo o pau dbrasil
deste País para tingir os veludos das cortes européias e foi se
desenvolvendo daté chegar a nossos
dias, onde a posse do carro do ano é mais importante do que uma dpequena
biblioteca em casa.
dNosso problema não é um
problema do governo, qualquer que seja ele. É um problema dde
todos nós. Nossos governos apenas refletem nossa maneira de pensar.
Quando as dclasses médias e as elites
pressionam, os governos constroem viadutos para facilitar a dcirculação
dos automóveis. Assim, se pressionarmos os governos com nosso voto
e com dnossa palavra, conquistaremos
também as ações que podem combater nossos cinco dséculos
de exclusão. Hoje, há escolas para quase todos, então temos de
lutar para que delas melhorem, para que
os professores sejam mais bem pagos e mais bem treinados.
d
Mas, principalmente, no que diz
respeito ao nosso trabalho, ao trabalho de dprofessores, educadores e
escritores para crianças e para jovens, temos muito a fazer. dNosso sistema educacional sempre
trabalhou reproduzindo e eternizando a exclusão da dmaioria. Só entrava nas escolas
públicas do meu tempo quem passasse em um “exame dde admissão”. Tratava-se, na
verdade, de um “exame de exclusão”, que garantia que dnaquelas boas escolas só
entrassem os melhores – ou os filhos da elite, ou os melhores dfilhos da ralé, que deviam ser
treinados para servir às elites, como foi o meu caso. dNossa política educacional
sempre perseguiu o aluno mais fraco, punindo-o, dreprovando-o, expulsando-o da
escola, cuidando apenas daquele já bom aluno, daquele dque, por sua origem familiar mais
estimulante, podia seguir os currículos do modo que a dsociedade precisava para renovar
os mesmos sistemas de domínio, os mesmos sistemas dde eternização dos estamentos
do atraso.
dImaginemos outra profissão,
a profissão do médico. Imaginemos um hospital. Seria justo dque
os hospitais só tratassem pessoas com boa saúde, expulsando os
doentes mais dgraves? É claro que não.
Gente com boa saúde não precisa de médico, assim como dquem
é bom aluno caminha sozinho, não precisa do professor. No entanto,
nós, dprofessores, somos médicos que
odeiam os doentes, principalmente os mais graves. dSomos
médicos que tratam somente dos sãos, somos médicos que reprovam
os dpacientes mais graves, que expulsam
os pacientes terminais. Reprovação não cura; o dque
cura são técnicas especiais para problemas especiais, como fazem
os médicos que dtêm um Centro de
Terapia Intensiva nos hospitais para tratamento dos casos mais dgraves.
dPor isso, profissionais como
eu que, desde o fim da década de 70 dedicam-se a produzir duma
Literatura especial, particular, para incentivo do hábito da
leitura nas escolas, dtemos sido um
pouco mais educadores do que escritores. Não pudemos nos dar ao
luxo dde escrever histórias
deliciosas, somente para o prazer do jovem leitor, como fez a descocesa
J.K. Rowling com seu maravilhoso Harry Potter. Nossa Literatura
sempre teve dde conquistar um espaço
inexistente na cabecinha de nossos leitores, teve de ser dformadora,
antes de ser somente prazerosa.
d
dRecebo muitas cartas de meus
leitores, principalmente dos adolescentes. São cartas dmuito
estimulantes, sempre trazendo elogios aos meus livros. Fico feliz
com isso? Nem dtanto. Sei que aquele
aluno faz parte de uma classe inteira para quem a professora drecomendou
a leitura do livro. Aquele aluno gostou, mas ele certamente é um
aluno dedspecial,
que teve um estímulo maior em casa e que já está destinado a
compor a elite ddo futuro. E os outros?
E a maioria, que não me escreve cartas? Posso ficar satisfeito dao
saber que a maioria continua excluída do prazer da leitura? Ah, que
delícia quando drecebo uma carta que
diz: “Pedro, eu detestava ler mas, depois de ler este livro seu, dpassei
a gostar da leitura...”
dCreio que nosso modo de fazer
literatura para crianças e para jovens deva preocupar d-se
exclusivamente com o prazer de ler. Admiro imensamente tudo o que
recomendam dos Parâmetros
Curriculares Nacionais, os PCNs, mas penso que essas regras servem
aos dlivros didáticos, não à
literatura. Os livros para as crianças brasileiras devem ser dsomente
bons, devem procurar conquistar os pequenos leitores através de sua
dsensibilidade, não de sua razão.
Nossa Literatura deve ser bela, maravilhosa, sem dpreocupar-se
em corresponder aos PCNs. Nossos escritores já se demonstraram dbaluartes
da Ética, da Justiça, da Liberdade e da Civilização, muito antes
de o Ministério dda Educação
elaborar esses parâmetros. As criações livres de escritores como
Ana dMaria Machado, como Ziraldo, como
Ruth Rocha, são os verdadeiros parâmetros do que dse
deve fazer em Literatura. Metade dos jovens adultos brasileiros, que
acabaram de dsair do 1o
grau, continuam lendo, certamente graças ao esforço dos
professores e ao dtalento de escritores
como a Ruth, o Ziraldo, a Ana e centenas de outros como eu, dplantadores
de esperança.
dHá um lindo livrinho
infantil, escrito por Lucília Junqueira de Almeida Prado, que conta
a dhistória de um incêndio na
floresta, quando todos os bichos fugiam em polvorosa. dDentre
eles, um pequeno passarinho voa apressado para o rio, pega uma gota
de água dno biquinho e voa de volta
para o incêndio, deixando a gota cair entre as chamas. dRepete
incansavelmente essa operação até que um animal, que passa por
ele em ddesabalada fuga, ri-se, dizendo
que aquelas gotinhas de nada adiantarão contra o fogo. dE
o passarinho responde: “Talvez não. Mas, no futuro, quando alguém
me perguntar o dque eu fiz enquanto
nossa floresta estava sendo destruída, eu poderei responder: Fiz o dque
pude!”
dd
dÉ a Esperança que me mantém
vivo. É a esperança que justifica a escolha de profissões dcomo
a do professor. É a Fé em que é possível fazer deste país um país
melhor, mais drico, mais feliz, mais
justo, que justifica o meu trabalho. Se cada um de nós, dpassarinhos
que ainda acreditam no futuro deste País, não desistirmos de
transportar dgotinhas de água para
combater o incêndio da ignorância e da exclusão, na certa djuntos
poderemos apagar o fogo que destrói nossas potencialidades,
deixando para trás dapenas o solo
calcinado da miséria e da desesperança. Eu acredito que minha
profissão dseja a de plantador de
esperança.
dEu acredito nisso. É por
isso que eu escrevo. É por isso que eu vivo.
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