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  Por Pedro Bandeira                                                                  

                                                                                                                                                    O ofício de escrever para quem não gosta de ler

    Acabamos de completar o quinto centenário da ocupação destas terras por povos deuropeus. E ultrapassamos este aniversário imersos como sempre estivemos nas dlamentações por vivermos mergulhados no atraso, na pobreza e na falta de esperanças dde que, um dia, possamos usufruir da condição universalmente privilegiada com que a dNatureza nos brindou. Somos um país enorme, quase um continente, rico no solo e no dsubsolo, livre de catástrofes naturais, com a maior bacia hidrográfica do mundo e todas das fabulosas condições destacadas por Stephan Zweig no seu famoso “Brasil, país do dfuturo”, redigido para bajular o ditador Getúlio Vargas.

dE nossos olhos levantam-se com um misto de inveja e admiração para cima, para o dNorte, onde impera um país do nosso tamanho e com a nossa idade. Como aqueles dmalditos americanos chegaram tão longe?

dDesde a adolescência essa pergunta me persegue. Em meio à Guerra do Vietnã, era fácil dencontrar respostas nas posturas imperialistas dos americanos: o mundo é pobre porque dos Estados Unidos são exploradores e enriquecem com a miséria dos outros. Nosso ddesenvolvimento só seria possível no momento em que os expulsássemos de nosso solo, dem que nacionalizássemos a Esso, a Coca Cola e a aveia Quaker.

dMas, para quem dedicou toda sua vida adulta a militar na Educação e na Literatura, eu  dtinha de buscar explicações na História. E, mais especificamente, na História da Cultura.

dHá pouco mais de duzentos anos, treze colônias da costa norte-americana do Atlântico ddeclararam sua independência da Inglaterra. O poderoso império militar britânico, capaz dde controlar os quatro cantos do mundo e de, pouco anos depois, mostrar-se capaz de dderrotar o fortíssimo exército de Napoleão, mal se esforçou para retomar aquelas terras drebeldes. Logo desistiu, porque aquela região que começava a chamar-se Estados dUnidos era pobre demais, pouco povoada e atrasada. Tudo o que eles estavam dperdendo eram as plantações de fumo da Virgínia, pois a metade norte daquela região dera tão inútil que até o escravismo não tinha dado certo por lá. Na América do Norte, o descravismo só deu certo mais ao sul, naquelas plantações de fumo e logo de algodão, donde trabalho era “coisa de escravo” e um descendente de europeu que se prezasse dnão poderia trabalhar, para não se igualar a um escravo. Nos dois terços mais ao norte dda costa atlântica, onde a terra era pobre e pedregosa, a região das tais treze dcolônias, não havia plantações que pudessem se beneficiar do trabalho escravo. Por lá, dcada homem trabalhava duro por sua sobrevivência, matando índios, devastando dflorestas e principalmente pescando. E foram justamente essas treze colônias que, disoladas, puderam progredir tanto e, para a felicidade do futuro dos Estados Unidos, dpuderam também vencer a guerra que travaram contra o Sul, uma região de economia dtão retrógrada quanto a civilização que se desenvolvia no Brasil. Sob o regime criado dpelo Norte, os americanos trabalharam, progrediram e encontraram sua própria maneira dde progredir. Criaram seu próprio modo de organizar sua democracia e até seus próprios desportes – em que lugar do mundo se joga aquele futebol de trombadas, com homens  dvestidos de armadura?

Mas o que interessava à coroa britânica não eram regiões inóspitas e trabalhosas. dEram os grandes mercados consumidores e fornecedores de matéria prima como China e dÍndia – ah, o chá, o marfim, a seda, o ópio! Os americanos que lá ficassem com aquela dterra paupérrima onde, por estar na mesma latitude da Europa, sequer era possível dplantar alguma coisa exótica que pudesse ser consumida na matriz, como a cana de daçúcar ou as bananas.

dNas Américas, ricas e prósperas eram cidades mais ao sul, como a cidade do México, dcomo Lima, como Salvador, como Olinda e como Vila Rica. Aqui sim havia ouro, ddiamantes, podia-se plantar cana de açúcar, bananas e o gostoso cafezinho. Se haviam dperdido o controle sobre o fumo da Virgínia, tinham as plantações de fumo do Caribe, dprincipalmente de Cuba, do Peru, da Colômbia, da Bahia...

dEnquanto isso, os Estados Unidos desenvolviam-se à margem dessa globalização dimposta pelo colonialismo europeu desde o século XV. Por serem pobres e atrasados, os dEstados Unidos, nos últimos dois séculos, puderam ficar praticamente isolados e criar dsua própria maneira de organizar-se e desenvolver-se. Por serem pobres e atrasados, dpor lá pouca atração havia para europeus aventureiros que buscassem fortuna rápida e dfácil. Para voltar rico para a Europa, era muito mais promissor embarcar em caravelas dpara o México, para as ilhas da América Central, para o Peru, em busca da prata de dPotosi, ou mais para cá, para a costa sul do Atlântico, onde em se plantando tudo ddava, para as Minas Gerais, de onde se extraía ouro e diamantes quase à flor da terra, dpara a exuberante Baía de Todos os Santos, onde o comércio de escravos garantia dfortunas rápidas e fáceis.

dE quem eram esses aventureiros que aqui desembarcavam? Por acaso tratava-se de dfidalgos educados, que traziam suas famílias para transformar esta colônia em sua dpátria? Certamente não. Eram criminosos degredados uns poucos, e traficantes, piratas de saqueadores a maioria.

dOs homens que compunham as tripulações dos navios que para cá aportavam drepresentavam a ralé de toda a Europa: eram aventureiros portugueses, espanhóis, dholandeses, franceses, genoveses, árabes, judeus... E imaginemos como eram esses dhomens: naquele tempo, ninguém tomava banho ou escovava os dentes. Os dmarinheiros, então, além de brutais analfabetos, na certa já não tinham dentes desde a dadolescência, ou portavam cacos esverdeados e podres sobre as gengivas. Por jamais dse banharem, vinham cobertos de piolhos e de doenças de pele provocadas por dimundícies sem conta. Para se ter uma idéia, basta saber que os colonizadores europeus dficavam abismados com o exótico costume dos chineses, que usavam folhas de papel dpara limpar-se após a defecação! Os europeus não tomavam banho e nem se limpavam! dBem, nossos antepassados não eram modelos agradáveis de se descrever.

Acima de tudo, esses viajantes eram do sexo masculino; mulheres jamais faziam dparte das tripulações. E esses homens passavam semanas a bordo de caravelas dperigosas, à beira do escorbuto por falta de alimentos frescos, fedendo como porcos, e dchegavam... às praias brasileiras! Imaginemos sua chegada, imaginemos o choque de dseu olhar e de suas narinas ao comparar a vida fétida das aglomeradas cidades deuropéias com a paisagem que se lhes abria diante dos olhos... E imaginemo-los ddeparando com... as mulheres indígenas! Numa vida junto à natureza, onde viver dmergulhadas nos rios era a rotina, aquelas eram mulheres limpas, cheirosas, enfeitadas dcom cocares multicoloridos e... peladinhas! Hum... depois de ter passado semanas à dmingua de mulher, o que faziam esses piratas? Ora, comiam as índias, é claro!

O resultado disso eram casamentos, a formação de famílias? Não. Na maior parte ddos casos, essas ligações ou eram estupros ou eram coabitações poligâmicas, sem dqualquer intenção de aqui reproduzir a cultura familiar européia, tanto no que diz drespeito às mulheres indígenas quanto no caso das escravas, essas sim, comumente destupradas. Nossos colonizadores não organizavam famílias; emprenhavam índias e descravas. Em seguida, esses papais ficavam por ali para cuidar da prole? Não. dContinuavam embrenhando-se nas matas, capturando índios, massacrando-os, dprocurando ouro e incendiando florestas para suas plantações. E as crianças eram dcriadas somente pelas mães. Por isso, a maioria desses novos brasileiros aprendia dapenas a língua da mãe e só vinha a aprender o Português quando crescia e tinha de dtrabalhar nas entradas, nas bandeiras ou como feitores dos milhares de escravos, o dproduto mais rentável de praticamente todo o período da colonização brasileira.

dE essas crianças formaram o nosso povo. Como se chamavam? Tinham apenas o dprimeiro nome, ganho na hora do batismo. Assim, quando se perguntava quem era certa dpessoa, ouvia-se:

– Esse é o José.

– José? Que José?

– É aquele que veio da selva, onde morava com os índios.

– Ah, bom, então é o José da Silva. E esse outro? É José e também veio da mata? dBom, para não confundir, vamos chamá-lo de José de Matos. E aquele ali?

– Veio da costa. É o João.

– Então é o João da Costa. E o outro?

– Quem? O Antônio, aquele que tem mania de pentear o cabelo?

– Ah, é? Então vai ser o Antônio Penteado. E esse aí?

– Esse é o Pedro. Aquele que sai com as bandeiras.

– Ah, então é o Pedro Bandeira!

dAssim nasceu e começou a crescer o povo brasileiro, sem nome, sem família e sem dpátria. E sem História, sem passado. Ao nascer nas matas, nas senzalas, o povo dbrasileiro não recebia a herança do conjunto de conquistas de um povo, com tradições, dcom arte, com tudo aquilo que compõe as raízes de uma cultura. Mesmo os povos dafricanos que para cá foram trazidos à força eram divididos e misturados na chegada, dpara maior controle e prevenção de rebeliões, assim enfraquecendo muito as didentidades culturais que traziam de seu continente.

A ocupação do Brasil colônia organizou-se não para aqui ser fundada uma nação, dmas para saquear, para retirar tudo o que fosse possível e levar para a matriz. Nós já dnascemos globalizados! Tudo o que aqui se produzia destinava-se apenas às dnecessidades européias. Ao contrário dos Estados Unidos, aqui nunca se pretendeu dcriar um mercado interno, uma classe média consumidora, preparada, com salários drazoáveis, e muito menos culta, lida, conhecedora de suas necessidade e capaz de dtraçar seu destino. A imprensa, inventada no século XV, só foi introduzida no Brasil no dséculo XIX, com a chegada da família real portuguesa. E é interessante observar que o dmesmo decreto real que criava a imprensa por aqui criava também... a censura à dimprensa!

E, sobre todo esse sistema, aqui estava a Igreja Católica como sustentáculo dideológico do processo. Como sabemos, para abraçar a religião católica, não é preciso dsaber ler. Basta saber ouvir, de modo a inteirar-se da moral católica, dos fundamentos ddessa fé, através do sermão do sacerdote, único intermediário entre a Bíblia e os fiéis. dAlmeida Garret, em meados do século XIX, há apenas 150 anos atrás, fazia um de seus dpersonagens queixar-se de não poder ler a Bíblia, pois só havia Bíblias em Latim. Os dcatólicos eram impedidos por todos os meios de ler a Bíblia.

dVoltemos aos Estados Unidos. Mesmo no período dominado pela Inglaterra, a dsuperestrutura ideológica de sua colonização era anglicana, uma religião que já havia se dlibertado da Igreja romana desde o século XVI. E, depois da independência, a maioria ddos que embarcavam para lá eram famílias que precisavam fugir da Europa por razões dreligiosas e políticas. Perseguidos por este ou aquele poderio europeu, essas pessoas dpara lá mudavam-se com suas famílias, sabendo que a volta seria impossível. dProcuravam um refúgio, onde pudessem construir um novo lar. E essas pessoas – dinglesas, escocesas, holandesas e alemãs, num primeiro momento e, logo em seguida, dirlandesas também – eram protestantes: luteranos ou calvinistas, em sua maioria. E, dpara sustentar sua religião, alfabetizar as pessoas desde crianças era uma obrigação.

dHá uma frase de Martinho Lutero que nos dá o que pensar:

dDas nächte bei der Kirche muss die Schule sein”. Tradução: “A coisa mais próxima da dIgreja deve ser a escola”. Isso porque a religião protestante baseia-se na leitura da dBíblia, não na oitiva de sua interpretação. Para ser protestante, é preciso ler a Bíblia. E, dpara ler a Bíblia, é preciso saber ler e bem, pois esta não é uma leitura fácil. Assim, desses imigrantes, logo que se estabeleciam em algum lugar, construíam seu templo e, dao lado, uma escola. Desse modo, salvo pequenas exceções, o problema do danalfabetismo nunca atingiu os Estados Unidos. Além disso, como se sabe, um dos dpilares da ideologia de Lutero era a santificação da riqueza, secularmente demonizada dpela Igreja Católica. Sob a ideologia anglicana, luterana ou calvinista, o trabalho era dsagrado e vencer na vida, enriquecer, era uma virtude. Os Estados Unidos nasceram dpara enriquecer e, melhor ainda, nasceram sabendo como enriquecer, pois sabiam ler!

Mas por aqui e pela América espanhola também começaram a surgir escolas, dtodas a cargo da Igreja. Mas, que escolas eram estas? Para quem funcionavam elas? dSomente para os filhos da elite. O povo brasileiro, os filhos das selvas, das matas, das dbandeiras, os mestiços, os mulatos, os mamelucos, os cafuzos, não tinham quaisquer ddireitos de cidadania. Cidadãos eram apenas os componentes da elite. Há pouco mais dde um século, por exemplo, o Brasil conseguiu abolir a vergonhosa escravização de dseres humanos. O que ocorreu então naquele fim de Império e início da fase drepublicana? Alguém imaginou que aqueles escravos libertos tinham de ser tratados dcomo novos cidadãos, com direito à habitação, à terra, à propriedade, ao trabalho livre de justamente remunerado e – principalmente – à escola? É claro que não. Nossa dabolição da escravatura equivaleu à condenação a outro tipo de escravatura: a dexclusão absoluta, principalmente daquilo que hoje consideramos como um direito básico dda humanidade – o acesso ao conhecimento, à educação. Atualmente, segundo o dInstituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a população negra do Brasil é duas vezes e dmeia mais pobre do que a branca. Nossos afrodescendentes representam 45% de nossa dpopulação, mas representam também 70% de nossa população de indigentes... Como ddiz Roberto Martins, presidente do IPEA, a pobreza neste País tem cor e essa cor é dnegra.

dMas nossa indigência negra é ainda acompanhada pelos 30% de miseráveis ddescendentes dos aventureiros europeus. E minha intenção é mostrar que a exclusão ddo conhecimento é a principal causa de todas as demais exclusões. Só para se ter uma didéia, em 1928, 80% dos alunos que estudavam no equivalente ao ensino médio dfreqüentavam escolas católicas, particulares, pagas. Quem eram esses estudantes? dFilhos da elite, é claro. Eu estudei desde o fim da década de 40 até o início da de 60 em dSantos, onde nasci. Estudei em escolas públicas, que eram bons colégios na época. dImagina-se então que, havendo boas escolas públicas, o processo de exclusão da dmaioria do povo brasileiro estava em seus últimos dias, não? Não. Hoje eu sei que, dnaquele meu tempo, só havia vagas para 30% das crianças de Santos nas escolas. 70% dde quem nascia naquela época estava condenado ao analfabetismo, mesmo em uma dcidade como Santos, um porto próspero e importante.

dA cultura que fomos criando neste país foi a cultura fidalga, a idéia de que quem nasce dem berço de ouro não precisa esforçar-se, não precisa trabalhar – isso é coisa de descravo! – não precisa estudar, não precisa ler, pois sua situação de privilégio seria um ddireito de nascença. Para os outros, para os da Silva, da Mata, da Costa, ou da dBandeira, sobrou só o esforço. A estes sempre foi negada a escola, a educação, a dcidadania, o direito de construir sua própria vida, seu próprio destino.

dMas, felizmente, nossa situação está mudando, e para melhor, muito melhor. Em 1930, d5% de nossa população total estava estudando, desde a pré-escola até a universidade. dDá então para entender quem, durante estes 70 anos, compôs a população adulta dbrasileira, não é? Uma imensa maioria de pessoas despreparadas, desinformadas, dincapazes de construir um país melhor do que o que temos hoje, incapazes de escolher dadequadamente em quem vão votar. Atualmente, porém, 34% de toda a nossa dpopulação está na escola: são 56 milhões de estudantes em uma população de 167 dmilhões de pessoas. E mais, atingimos um número de primeiro mundo: 95% das crianças de jovens entre 7 e 14 anos estão na escola, conquista inédita no Brasil nestes 500 danos, uma cifra equivalente à do próspero Japão! Pela primeira vez em nossa História, dpodemos dar a volta por cima.

dRecentemente, foi divulgada um extensa pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira ddo Livro acerca do hábito de leitura dos brasileiros. Dentre muitas de suas conclusões, dessa pesquisa constatou que quase metade das pessoas de 14 a 19 anos lê e gosta de dler, enquanto que essa percentagem vai caindo nas outras faixas etárias, até chegar a dmíseros 24% na população acima de quarenta anos! Isso certamente significa que o desforço dos professores nesta última década incentivando seus alunos a lerem livros dcomo os que eu escrevo está dando bons resultados. está dando bons resultados! dEstamos melhorando, afinal, o Brasil está melhorando! d

Há uma frase imortal de Confúcio que nos serve como nunca, agora, nos albores dde um novo milênio totalmente tecnológico, baseado no conhecimento: “Onde houver dboa educação, não haverá distinção de classes”. Nossa História tem sido a da deternização da injusta divisão de privilégios através da negação da escola para todos. dNossa História tem sido a história da exclusão. Vamos mudar a História. Podemos fazê  d-lo!

dPara a consecução dessa meta, porém, precisamos mexer em nossa própria maneira de dver a educação. Por causa da tradição que acabei de descrever, este é um país onde a dluta pelo conhecimento e pela leitura não faz parte de nossos valores maiores. Mesmo dnossas elites, mesmo as pessoas que podem comprar livros, lêem muito pouco. Mesmo dnossos alunos filhos de famílias com condições raramente têm o exemplo da leitura em dcasa. Quem trabalha em Educação sabe que muitos pais de classe média sacrificam-se dpara comprar o tênis da moda para seu filho, mas esperneiam quando a professora pede da compra de um livro. Pois é: para nossa elite, é mais importante investir no pé do que dna cabeça do filho... Nossa civilização começou com o arrasamento de todo o pau dbrasil deste País para tingir os veludos das cortes européias e foi se desenvolvendo daté chegar a nossos dias, onde a posse do carro do ano é mais importante do que uma dpequena biblioteca em casa.

dNosso problema não é um problema do governo, qualquer que seja ele. É um problema dde todos nós. Nossos governos apenas refletem nossa maneira de pensar. Quando as dclasses médias e as elites pressionam, os governos constroem viadutos para facilitar a dcirculação dos automóveis. Assim, se pressionarmos os governos com nosso voto e com dnossa palavra, conquistaremos também as ações que podem combater nossos cinco dséculos de exclusão. Hoje, há escolas para quase todos, então temos de lutar para que delas melhorem, para que os professores sejam mais bem pagos e mais bem treinados. d

Mas, principalmente, no que diz respeito ao nosso trabalho, ao trabalho de dprofessores, educadores e escritores para crianças e para jovens, temos muito a fazer. dNosso sistema educacional sempre trabalhou reproduzindo e eternizando a exclusão da dmaioria. Só entrava nas escolas públicas do meu tempo quem passasse em um “exame dde admissão”. Tratava-se, na verdade, de um “exame de exclusão”, que garantia que dnaquelas boas escolas só entrassem os melhores – ou os filhos da elite, ou os melhores dfilhos da ralé, que deviam ser treinados para servir às elites, como foi o meu caso. dNossa política educacional sempre perseguiu o aluno mais fraco, punindo-o, dreprovando-o, expulsando-o da escola, cuidando apenas daquele já bom aluno, daquele dque, por sua origem familiar mais estimulante, podia seguir os currículos do modo que a dsociedade precisava para renovar os mesmos sistemas de domínio, os mesmos sistemas dde eternização dos estamentos do atraso.

dImaginemos outra profissão, a profissão do médico. Imaginemos um hospital. Seria justo dque os hospitais só tratassem pessoas com boa saúde, expulsando os doentes mais dgraves? É claro que não. Gente com boa saúde não precisa de médico, assim como dquem é bom aluno caminha sozinho, não precisa do professor. No entanto, nós, dprofessores, somos médicos que odeiam os doentes, principalmente os mais graves. dSomos médicos que tratam somente dos sãos, somos médicos que reprovam os dpacientes mais graves, que expulsam os pacientes terminais. Reprovação não cura; o dque cura são técnicas especiais para problemas especiais, como fazem os médicos que dtêm um Centro de Terapia Intensiva nos hospitais para tratamento dos casos mais dgraves.

dPor isso, profissionais como eu que, desde o fim da década de 70 dedicam-se a produzir duma Literatura especial, particular, para incentivo do hábito da leitura nas escolas, dtemos sido um pouco mais educadores do que escritores. Não pudemos nos dar ao luxo dde escrever histórias deliciosas, somente para o prazer do jovem leitor, como fez a descocesa J.K. Rowling com seu maravilhoso Harry Potter. Nossa Literatura sempre teve dde conquistar um espaço inexistente na cabecinha de nossos leitores, teve de ser dformadora, antes de ser somente prazerosa. d

dRecebo muitas cartas de meus leitores, principalmente dos adolescentes. São cartas dmuito estimulantes, sempre trazendo elogios aos meus livros. Fico feliz com isso? Nem dtanto. Sei que aquele aluno faz parte de uma classe inteira para quem a professora drecomendou a leitura do livro. Aquele aluno gostou, mas ele certamente é um aluno dedspecial, que teve um estímulo maior em casa e que já está destinado a compor a elite ddo futuro. E os outros? E a maioria, que não me escreve cartas? Posso ficar satisfeito dao saber que a maioria continua excluída do prazer da leitura? Ah, que delícia quando drecebo uma carta que diz: “Pedro, eu detestava ler mas, depois de ler este livro seu, dpassei a gostar da leitura...”

dCreio que nosso modo de fazer literatura para crianças e para jovens deva preocupar  d-se exclusivamente com o prazer de ler. Admiro imensamente tudo o que recomendam dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os PCNs, mas penso que essas regras servem aos dlivros didáticos, não à literatura. Os livros para as crianças brasileiras devem ser dsomente bons, devem procurar conquistar os pequenos leitores através de sua dsensibilidade, não de sua razão. Nossa Literatura deve ser bela, maravilhosa, sem dpreocupar-se em corresponder aos PCNs. Nossos escritores já se demonstraram dbaluartes da Ética, da Justiça, da Liberdade e da Civilização, muito antes de o Ministério dda Educação elaborar esses parâmetros. As criações livres de escritores como Ana dMaria Machado, como Ziraldo, como Ruth Rocha, são os verdadeiros parâmetros do que dse deve fazer em Literatura. Metade dos jovens adultos brasileiros, que acabaram de dsair do 1o grau, continuam lendo, certamente graças ao esforço dos professores e ao dtalento de escritores como a Ruth, o Ziraldo, a Ana e centenas de outros como eu, dplantadores de esperança.

dHá um lindo livrinho infantil, escrito por Lucília Junqueira de Almeida Prado, que conta a dhistória de um incêndio na floresta, quando todos os bichos fugiam em polvorosa. dDentre eles, um pequeno passarinho voa apressado para o rio, pega uma gota de água dno biquinho e voa de volta para o incêndio, deixando a gota cair entre as chamas. dRepete incansavelmente essa operação até que um animal, que passa por ele em ddesabalada fuga, ri-se, dizendo que aquelas gotinhas de nada adiantarão contra o fogo. dE o passarinho responde: “Talvez não. Mas, no futuro, quando alguém me perguntar o dque eu fiz enquanto nossa floresta estava sendo destruída, eu poderei responder: Fiz o dque pude!” dd

dÉ a Esperança que me mantém vivo. É a esperança que justifica a escolha de profissões dcomo a do professor. É a Fé em que é possível fazer deste país um país melhor, mais drico, mais feliz, mais justo, que justifica o meu trabalho. Se cada um de nós, dpassarinhos que ainda acreditam no futuro deste País, não desistirmos de transportar dgotinhas de água para combater o incêndio da ignorância e da exclusão, na certa djuntos poderemos apagar o fogo que destrói nossas potencialidades, deixando para trás dapenas o solo calcinado da miséria e da desesperança. Eu acredito que minha profissão dseja a de plantador de esperança.

dEu acredito nisso. É por isso que eu escrevo. É por isso que eu vivo.

 

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