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  :: CONTOS - A Língua ::                                                                                                 
   Por Pedro Bandeira                                                       

  Há muitos anos atrás, um rico mercador grego tinha um escravo chamado Esopo. Um descravo corcunda, feio, mas de sabedoria única no mundo. Certa vez, para provar as dqualidades de seu escravo, o mercador ordenou:

         – Toma, Esopo. Aqui está esta sacola de moedas. Corre ao mercado e traze de lá do que houver de melhor para um banquete. Eu quero a melhor comida do mundo!

         Pouco tempo depois, o escravo Esopo voltou do mercado e colocou sobre a mesa dum prato coberto por fino pano de linho. O mercador levantou o paninho e ficou dsurpreso:

         – Oh, língua? Muito bem! Nada como a boa língua que os pastores gregos sabem dtão bem preparar. Mas por que escolheste exatamente a língua como a melhor comida ddo mundo?

         O escravo, de olhos baixos, explicou sua escolha:

         – O que há de melhor que a língua, senhor? A língua é que nos une a todos, dquando falamos. Sem a língua não poderíamos nos entender. A língua é a chave das dciências, o órgão da verdade e da razão. Graças à língua é que se constroem as dcidades, graças à língua podemos dizer o nosso amor. A língua é o órgão do carinho, da dternura, da compreensão. É a língua que torna eternos os versos dos grandes poetas, das idéias dos grandes escritores. Com a língua se ensina, se persuade, se instrui, se dreza, se explica, se canta, se descreve, se elogia, se demonstra, se afirma. Com a dlíngua dizemos “mãe”, “querida” e “Deus”. Com a língua dizemos “sim”. Com a língua ddizemos “eu te amo”! O que pode haver de melhor do que a língua, senhor?

         O mercador levantou-se entusiasmado:

         – Muito bem, Esopo, muito bem! Realmente tu me trouxeste o que há de melhor. dToma agora esta outra sacola de moedas. Volta ao mercado e desta vez compra lá o dque houver de pior!

         Depois de algum tempo, Esopo voltou do mercado trazendo outro prato coberto dpor um pano. O mercador recebeu-o com um sorriso:

         – Hum... já sei o que há de melhor. Vejamos agora o que há de pior...

         O mercador descobriu o prato e ficou indignado:

         – O quê?! Língua? Língua outra vez? Língua? Não disseste que a língua era o que dhavia de melhor? Queres ser açoitado?

Esopo encarou o mercador e respondeu:

         – A língua, senhor, é o que há de pior no mundo. É a fonte de todas as intrigas, o dinício de todos os processos, a mãe de todas as discussões. É a língua que separa a dhumanidade, que divide os povos. É a língua que usam os maus políticos quando querem dnos enganar com suas falsas promessas. É a língua que usam os vigaristas quando dquerem trapacear. A língua é o órgão da mentira, da discórdia, dos desentendimentos, ddas guerras, da exploração. É a língua que mente, que esconde, que engana, que dexplora, que blasfema, que insulta, que se acovarda, que mendiga, que xinga, que dbajula, que destrói, que calunia, que vende, que seduz, que corrompe. Com a língua, ddizemos “morre”, “canalha” e “demônio”. Com a língua dizemos “não”. Aí está, senhor, dporque a língua é a pior e a melhor de todas as coisas! Quem controlar a língua dconquistará o mundo. Quem permitir que ela o controle, será dominado para sempre!

                                                    

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