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  :: Os Sapatos :: CONTOS                                                                                                  
   Por Pedro Bandeira                                                                  

                                                                                                                    dd   Numa noite de luar, num depósito de lixo, um gato vagabundo farejava, à procura de algum resto. Subiu numa montanha de sacos e suas unhas afiadas rasgaram um d deles. Nada havia ali que pudesse alimentá-lo e logo o gato se afastou, continuando a d procura.

        Do saco rasgado, que mal se equilibrava sobre a pilha de outros sacos, seu conteúdo rolou para baixo. Eram velhos sapatos, cada um de um jeito, rasgados, gastos, desparceirados.

        Rolaram pela lama e, logo, um vozeirão se ouviu:

        – Mas que sorte malvada a minha! Sou uma bota militar. Calçando os pés de um d dgeneral, já desfilei nas mais garbosas paradas, estive nas mais sangrentas batalhas, dvenci os mais ferozes inimigos! E, agora, ter de acabar aqui, na lama fétida de um lixão!

        – Sorte triste mesmo... – disse uma vozinha fraca.

        – E eu, então? – ouviu-se uma voz feminina, elegante como a pétala de uma flor. – dSou a sapatilha da maior bailarina do mundo! Já dancei nos maiores palcos do planeta, drodopiei por teatros de ópera onde só comparecia a elite mais elegante! Fui aquecida dpelas luzes das ribaltas mais luxuosas e dobrei-me em agradecimento aos aplausos mais dentusiasmados! Eu, sim, nunca mereceria um destino tão cruel como este!

        – É verdade... Uma sapatilha tão importante... – concordou a vozinha, tão leve dcomo a brisa.

        – Aplausos? – rosnou uma chuteira desbeiçada. – Vocês não sabem o que são os daplausos de um estádio lotado, depois dos gols que eu marquei! Nos pés do melhor datacante do mundo, corri, driblei, fintei, deixei caídos os mais truculentos zagueiros e fiz dsacudir as redes defendidas pelos mais arrojados goleiros! Vocês não sabem o que é douvir um estádio inteiro a gritar, a aplaudir, enlouquecidos pelo sabor da vitória! Que fim dinjusto este!

         – Injusto mesmo... – continuou a vozinha.

         – Injusto foi o meu! – um pé de tênis tomou a palavra. – Calcei a juventude, corri dpelos gramados, dancei sob o som dos ritmos mais loucos, escalei muros, assisti aulas d importantes... Por que ser assim abandonado? Por quê?

– Coisa triste, triste de verdade... – repetiu a vozinha.

– E eu? – lamentou um sapato de verniz. – Uma noite enluarada como esta me dlembra as festas em que estive, nos pés de um cavalheiro de alta dlinhagem, rodopiando pelos salões da aristocracia, roçando, no ritmo das dvalsas, as pontas dos sapatinhos mais elegantes, calçados pelas mais dbelas mulheres do mundo... Ah, eu me lembro de uma noite, linda como desta... Lembro-me de tocar delicadamente a ponta de um sapatinho coberto por desmeraldas e safiras, enquanto meu dono beijava os lábios úmidos da princesa que o dcalçava... Oh, terminar assim, jogado fora, abandonado...

            – É verdade... – reforçou a vozinha. – O senhor tem razão, não merecia tanta d dtristeza...

            – Quem não merecia estar aqui sou eu! – a voz de uma criança tomou a d dpalavra. – Sou o sapatinho de um bebê. Vivi em colo de mãe, ajudei meu pequeno dono da dar os primeiros passos, evitei até que seu pezinho se machucasse ao tropeçar. Mas dmeu bebê cresceu, eu me rasguei, e aqui estou, esquecido!

            – Que triste! Muito triste... – apoiou a vozinha solitária.

            – Eu tive destino mais honrado! – atalhou um pé de botina. – Calcei o mais dtrabalhador de todos os lavradores! Em seus pés, lavrei extensões sem limite, semeei dcampos imensos, colhi safras portentosas, que alimentaram gerações! Não merecia dterminar assim, como um traste!

            – Não merecia mesmo... – reforçou a vozinha.

            Um sapato de cetim, que fora branco um dia, lamentou, com a voz de uma d ddonzela:

            – E eu? Estive nos pés das noivinhas mais alegres, fui coberto por vestidos de dnoiva com caudas longas, por véus levíssimos! Fui o sapato dos momentos de d dfelicidade, do início da formação de famílias que povoaram o mundo! E ter de acabar d dassim, jogado no lixo!

            – Que história tão triste a sua... – choramingou a vozinha.

            Foi aí que o vozeirão da bota militar perguntou, com o tom autoritário de quem destá acostumado a comandar:

            – E você, que concorda com tudo? Não consigo vê-lo, mesmo com a luz de um dluar como este. Quem é você?

            A vozinha suspirou:

            – Não, ninguém pode me ver... estive nos pés de um menino pobre, uma criança d faminta, que sempre dormiu ao relento, debaixo de viadutos, que vinha aqui, neste d lixão, disputar restos de comida com os ratos e os urubus... Nunca soube o que foi o colo de uma mãe, o esplendor de refletores, a glória das paradas, o encerado de salões de baile, a festa colorida de um templo em casamentos... Vocês tiveram seus momentos de glória, têm do dque se lembrar, agora que perderam a serventia. Meu dono não, pois nasceu dabandonado na soleira de uma porta. Ninguém o quis, ninguém o adotou, e ele vagou dpelo mundo, até o fim. Agora vou calçar outros pés sem família, pois o meu dono dmorreu. Morreu de fome, de fraqueza, de tristeza, infeccionado pelas doenças do lixo e ddo abandono...

            A voz do sapato de noiva, emocionada, perguntou:

            – Mas por que não conseguimos ver você?

            – Porque sou o pó dos caminhos. Meu dono nunca teve sapatos...

 

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