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dd Numa
noite de luar, num depósito de lixo, um gato vagabundo farejava, à
procura de algum resto. Subiu numa montanha de sacos e suas unhas
afiadas rasgaram um d deles. Nada havia ali que pudesse alimentá-lo e
logo o gato se afastou, continuando a d procura.
Do saco rasgado, que mal se equilibrava sobre a pilha de
outros sacos, seu conteúdo rolou para baixo. Eram velhos sapatos,
cada um de um jeito, rasgados, gastos, desparceirados.
Rolaram pela lama e, logo, um vozeirão se ouviu:
– Mas que sorte
malvada a minha! Sou uma bota militar. Calçando os pés de um d
dgeneral, já desfilei nas mais garbosas paradas, estive nas mais
sangrentas batalhas, dvenci os mais ferozes inimigos! E, agora, ter
de acabar aqui, na lama fétida de um lixão!
– Sorte triste mesmo... – disse uma vozinha fraca.
– E eu, então? – ouviu-se uma voz feminina, elegante
como a pétala de uma flor. – dSou a sapatilha da maior bailarina
do mundo! Já dancei nos maiores palcos do planeta, drodopiei por
teatros de ópera onde só comparecia a elite mais elegante! Fui
aquecida dpelas luzes das ribaltas mais luxuosas e dobrei-me em
agradecimento aos aplausos mais dentusiasmados! Eu, sim, nunca
mereceria um destino tão cruel como este!
– É verdade... Uma
sapatilha tão importante... – concordou a vozinha, tão leve dcomo
a brisa.
– Aplausos? – rosnou uma chuteira desbeiçada. – Vocês
não sabem o que são os daplausos de um estádio lotado, depois dos
gols que eu marquei! Nos pés do melhor datacante do mundo, corri,
driblei, fintei, deixei caídos os mais truculentos zagueiros e fiz dsacudir as redes defendidas pelos mais arrojados goleiros! Vocês não
sabem o que é douvir um estádio inteiro a gritar, a aplaudir,
enlouquecidos pelo sabor da vitória! Que fim dinjusto este!
– Injusto mesmo... – continuou a vozinha.
– Injusto foi o meu! – um pé de tênis tomou a palavra.
– Calcei a juventude, corri dpelos gramados, dancei sob o som dos
ritmos mais loucos, escalei muros, assisti aulas d importantes... Por
que ser assim abandonado? Por quê?
–
Coisa triste, triste de verdade... – repetiu a vozinha.
–
E eu? – lamentou um sapato de verniz. – Uma noite enluarada como
esta me dlembra as festas em que estive, nos pés de um cavalheiro de
alta dlinhagem, rodopiando pelos salões da aristocracia, roçando,
no ritmo das dvalsas, as pontas dos sapatinhos
mais elegantes, calçados
pelas mais dbelas mulheres do mundo... Ah, eu me lembro de
uma noite,
linda como desta... Lembro-me de tocar delicadamente a ponta de um
sapatinho coberto por desmeraldas e safiras, enquanto meu dono
beijava os lábios úmidos da princesa que o
dcalçava... Oh,
terminar assim, jogado fora, abandonado...
– É verdade... –
reforçou a vozinha. – O senhor tem razão, não merecia tanta d
dtristeza...
– Quem não merecia
estar aqui sou eu! – a voz de uma criança tomou a d
dpalavra. –
Sou o sapatinho de um bebê. Vivi em colo de mãe, ajudei meu
pequeno dono da dar os primeiros passos, evitei até que seu pezinho
se machucasse ao tropeçar. Mas dmeu bebê cresceu, eu me rasguei, e
aqui estou, esquecido!
– Que triste! Muito
triste... – apoiou a vozinha solitária.
– Eu tive destino mais
honrado! – atalhou um pé de botina. – Calcei o mais dtrabalhador
de todos os lavradores! Em seus pés, lavrei extensões sem limite,
semeei dcampos imensos, colhi safras portentosas, que alimentaram
gerações! Não merecia dterminar assim, como um traste!
– Não merecia
mesmo... – reforçou a vozinha.
Um sapato de cetim, que
fora branco um dia, lamentou, com a voz de uma d
ddonzela:
– E eu? Estive nos pés
das noivinhas mais alegres, fui coberto por vestidos de dnoiva com
caudas longas, por véus levíssimos! Fui o sapato dos momentos de d
dfelicidade, do início da formação de famílias que povoaram o
mundo! E ter de acabar d dassim, jogado no lixo!
– Que história tão
triste a sua... – choramingou a vozinha.
Foi aí que o vozeirão
da bota militar perguntou, com o tom autoritário de quem destá
acostumado a comandar:
– E você, que
concorda com tudo? Não consigo vê-lo, mesmo com a luz de um dluar
como este. Quem é você?
A vozinha suspirou:
– Não, ninguém pode
me ver... estive nos pés de um menino pobre, uma criança d faminta,
que sempre dormiu ao relento, debaixo de viadutos, que vinha aqui,
neste d lixão, disputar restos de comida com os ratos e os urubus...
Nunca soube o que foi o colo de uma mãe, o esplendor de refletores,
a glória das paradas, o encerado de salões de baile, a festa
colorida de um templo em casamentos... Vocês tiveram seus momentos de glória, têm do
dque se lembrar, agora que perderam a serventia.
Meu dono não, pois nasceu dabandonado na soleira de uma porta. Ninguém
o quis, ninguém o adotou, e ele vagou dpelo mundo, até o fim. Agora
vou calçar outros pés sem família, pois o meu dono dmorreu. Morreu
de fome, de fraqueza, de tristeza, infeccionado pelas doenças do
lixo e ddo abandono...
A voz do sapato de
noiva, emocionada, perguntou:
– Mas por que não
conseguimos ver você?
– Porque sou o pó dos caminhos. Meu dono nunca teve
sapatos...
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